Review | State of Decay 2 – A sobrevivência em um apocalipse não é um ato solitário

Zed morreu. Tinha chegado recentemente na comunidade e já estava gerando brigas com vários membros. Sua presença tirava alguns pontos de moralidade de quase todo mundo. Vou ser sincero, em alguns momentos de crise, quando a moral estava em um nível crítico, até pensei em exilá-lo. Mas não queria que Zed morresse – muito menos devorado por zumbis. A morte de um membro (mesmo que “chato”) acabou desencadeando uma depressão geral entre os demais. Isso somado à falta de comida e remédio deixou um status de “sem esperança”, que gritava em vermelho toda vez que acessava meu inventário. Precisei pensar em algo grande para tentar resolver a situação e acabei investindo em uma nova base, maior e distante da cidade.

Todo esse caso me fez perceber que State of Decay 2 não é apenas mais um jogo sobre apocalipse zumbi, como também não é jogo sobre pessoas e suas histórias. State of Decay 2 é sobre uma comunidade e sua sobrevivência.

O jogador começa escolhendo uma dupla de personagens – background de poucas linhas – com habilidades e personalidades distintas que seguem para um acampamento militar, que de acordo com os boatos seria seguro. Claro que ao chegar encontram apenas um lugar abandonado, com diversos monstros em volta, restando apenas um soldado e um médico no local. Escolhemos uma das 3 opções de cidade para seguir caminho e pronto, assim nasce a nossa comunidade.

Será que agora o Chef consegue fazer um miojo de tomate?

Por mais que a ideia de enfrentar hordas de mortos-vivos seja divertida, a administração de toda a comunidade é o principal foco em State of Decay 2. O jogador irá passar horas a procura de locais com os recursos básicos para sobreviver. Ao passar dos dias se torna cada vez mais difícil encontrar esses recursos, exigindo que uma nova estratégia seja adotada, como trocar algum posto avançado já estabelecido, criar uma horda na base, fazer melhorias na enfermaria ou recorrer a negociações com enclaves vizinhos ou mercadores, por exemplo. Além disso, temos a administração de pessoas. É necessário ter um cozinheiro para melhor aproveitar a comida ou alguém que saiba trabalhar com ferramentas para ter uma oficina e reparar ou construir armas e bombas – se a base tiver espaço para ter essas duas instalações, caso contrário precisará escolher o que construir. Analisar quem recrutar para a base é fundamental. Tem que ser útil de alguma forma para toda a comunidade prosperar. Mas e quando a pessoa acabou de perder a única filha por bandidos? Ou teve todo o enclave morto por zumbis quando estava fora procurando alimentos, ficando sozinho? Você pode ajudar uma pessoa necessitada e ter problemas futuros por falta de camas ou comida, ou deixar que siga seu caminho e ficar com peso na consciência. Essas e outras escolhas definirão a história de sua comunidade e dos dias que virão.

No final das contas, State of Decay 2 é um jogo de escolhas. Escolhas essas que serão tomadas pelo jogador ou pelo tempo. Cabe o jogador saber como sobreviver às consequências.

Mecânicas

Mecanicamente, State of Decay 2 é idêntico ao seu antecessor. Por ter jogado (e finalizado) o primeiro game da Undead Lab sinto que tive vantagens na hora de fazer escolhas ou montar estratégias que jogadores de primeira viagem provavelmente não terão. Não perdi nenhum ninguém por falta de moral ou tive brigas graves entre membros que tivesse um resultado preocupante – mesmo que o jogo passasse uma sensação que estava apenas a um passo para algo assim acontecer.

Graficamente o jogo não impressiona, mas provavelmente esse não seja um ponto em que State of Decay 2 deseja impressionar. Ele se mostra competente em levar o jogador a imersão daquele mundo. Claro que uma expressão melhor dos personagens não faria mal a ninguém.

O foco não são os gráficos em State of Decay 2

A exploração será a principal atividade do jogador. Para manter a ala médica – a primeira a ser construída por questão de narrativa – é necessário ter remédios e materiais em estoque diariamente. Por ser uma ala importante, uma futura desativação gerará preocupação entre os membros, custando alguns pontos de moral. Ter um estoque grande também pode ser um problema caso não haja um armazenamento correto, com espaço e organização adequada. O resultado é a perda de recursos constantemente. Conferir o status de cada membro da comunidade também é uma tarefa frequente. O jogador pode conferir o estado da moral e detalhes como os pontos que trazem felicidade e aflição ao personagem. Realizar as missões particulares de cada um também influencia em seu humor. Em minha primeira base, uma preocupação constante entre os membros era a falta de uma torre de vigilância, a primeira instalação a ser criada em minha segunda base.

Existe modificadores que podem ser instalados em cada estação para gerar energia, coletar água, adicionar espaços para armazenamento ou criar determinados tipos de munição. O rádio serve para pedir ajuda da rede para localizar recursos, núcleos pestilentos ou pedir ajuda de enclaves vizinhos com o envio imediato de itens básicos, como remédios e gasolina. Também é a maneira para outro jogador te localizar e iniciar uma partida online.  

Os postos avançados são extensões da sua base principal e muito úteis durante a exploração, com acesso ao armário de suprimentos, troca de personagem e dependendo do local um bônus de moral ou até de suprimentos, como comida em um supermercado, munição em uma loja de arma ou intensificação do sinal em uma torre de rádio.

O combate segue da mesma forma de seu antecessor. Direto com armas brancas de variados tipos como facões, porretes e tacos; a distancia com armas de fogo, com pistolas, metralhadoras ou mesmo lança-granada, além do bom e velho stealth. Coquetéis molotov, granadas, explosivos improvisados e itens para chamar atenção como bombinhas, fogos de artifício e aparelhos de som permitem criar algumas estratégias na hora da ação – mesmo que no final você acabe usando o carro para passar por cima de todo mundo.    

“Ainda tenho muito o que explorar”

Além dos clássicos mortos-vivos, existem alguns especiais já vistos no primeiro game, como berrador, o selvagem e o Colossal. A grande novidade – e que faz parte da trama principalmente de State of Decay 2 – são os zumbis com “peste sanguínea”. Uma variação do clássico zumbi com uma doença que infecta o jogador e mata em poucos dias sem o tratamento adequado. Alguns núcleos pestilentos estão espalhados pela cidade e cabe ao jogador acabar com eles. É uma tarefa difícil, pois ao serem atacados, chamam a atenção de diversos zumbis com peste e deixa o risco de infecção lá no alto. Isso sem falar que são duros na queda.

Como toda a boa história de apocalipse zumbi, os humanos também são uma dor de cabeça em State of Decay 2. Enclaves inimigos são uma ameaça à sua comunidade e as vizinhas. Não são poucas as missões de combate-los diretamente, mas comparado aos zumbis não é tão desafiador, mesmo armados com arma de fogo. Um tiro bem dado na cabeça resolve o problema. Isso tornou uma das principais missões da campanha fácil demais para mim.  

As habilidades de cada personagem é evoluída de acordo com o uso. Quanto mais correr mais aumentará sua barra de cardio. Ao chegar ao nível máximo, o jogador ganhar duas opções de melhoria como consumir menos stamina na hora de correr e lutar ou aguentar carregar mais peso na mochila. No combate corpo-a-corpo o personagem pode ganhar um golpe novo como derrubar o inimigo no chão ou cortar as pernas em um único golpe usando uma arma com lâmina.

Missões e objetivos

State of Decay 2 não tem uma variação muito grande de tipos de missões. Elas consistem basicamente em procurar por algum recurso ou item, acabar com infestações de zumbis e conversar com membros e enclaves vizinhos. O que impede uma sensação imensa de repetição é o constante clima de urgência. Sua base está com recursos faltando, um enclave vizinho perdeu um membro e um desconhecido pede uma ajuda para algo urgente enquanto seu carro está quase sem gasolina no meio da noite sem um galão extra no porta malas para te salvar, tudo ao mesmo tempo. É normal se sentir perdido em situações como esta e o jogo obriga a escolher o que priorizar. Com exceção da campanha principal, todas as outras missões são opcionais e serão canceladas caso o jogador não as conclua após um tempo. As da comunidade são missões dos membros que influenciam na moral de cada um. Muitas são geradas de acordo com a situação atual da comunidade, como uma preocupação geral pelo aumento de locais infestados na região. Outras são assuntos particulares, como procurar por alguém conhecido que vivia na região ou buscar por um item específico (mesmo sem utilidade nenhuma) que fará bem para ele.   

As missões de enclave influenciam no relacionamento com eles ou mesmo se continuarão na cidade. Amigos são uma opção a mais de negociação e podem ser um auxílio na hora do sufoco. Assim como as missões da comunidade, alguns enclaves também possuem objetivos únicos, como ajudar na montagem de uma oficina de carros ou uma futura clínica. A oficina em especial me habilitou uma nova função no rádio; a entrega de um carro novinho com tanque cheio próximo a minha localização atual. Os hostis ameaçam a segurança de sua comunidade e de vizinhos, gerando uma preocupação entre alguns membros.

Hora de falar com uns vizinhos encrenqueiros

Pedidos de ajuda anônimos também são algo recorrente. As vezes de membros perdidos de enclaves recém chegados ou emboscadas de pessoas má intencionadas. Em minha primeira comunidade, o líder escolhido foi um xerife que de vez em quando precisava resolver intrigas e discussões de vizinhos. Em um desses casos, tive que investigar uma acusação de assassinato que acabou de forma curiosa. Foi uma quebra da rotina muito bem-vinda.

Os membros da comunidade também tem opinião própria sobre algumas missões. Eles podem não gostar da ideia de compartilhar algum recurso com enclave necessitado ou mesmo achar “fútil” certas missões particulares de um membro.

Modo Online

O online era o modo mais pedido no jogo anterior. Sobreviver a um apocalipse zumbi com até 3 amigos é divertido e estica muito o gameplay. Os objetos de busca são separados para cada player e existe um limitador no mapa para não se afastarem demais no host. Com exceção dos sacos de suprimentos, os demais itens coletados podem ser adicionados ao nosso armário. A comunicação in game é muito limitada, tornando difícil saber qual a intenção do host e deixando a partida meio “chata” depois de um certo tempo. A experiência ideal é uma partida com comunicação por voz entre amigos.

Bugs e mais bugs

Se perder esse carro também vou desligar e ir jogar Fortnite

Mesmo após alguns meses de seu lançamento, State of Decay 2 conta com diversos bugs que podem prejudicar a jogatina de qualquer um. Quedas de frame, problemas de render de inimigos e objetos, NPCs sumindo, personagens presos ou atravessando estruturas (quando não ficam presos ao chão) e provavelmente o mais grave, a colisão dos veículos.O carro é o principal meio de transporte do jogo e perde-lo por problemas técnicos é realmente frustrante, principalmente quando se está com um o porta-malas cheio. Perdi alguns veículos presos por obstáculos como pedras ou Guard Rails, e capotados por breves momentos em que a física resolve desligar em uma simples colisão – isso quando há uma colisão. Passar por lugares estreitos ou com terreno irregular nunca mais.

NPCs desaparecendo também é recorrente. Seguidores que constam no minimapa mas não estão presentes na tela, te deixando sozinho contra os zumbis. Mesmo que você consiga se virar sozinho – principalmente se estiver bem preparado – e a falta de um seguidor talvez não influencie tanto em sua patrulha pela cidade, ainda deixa uns pontos negativos no ar, como não ter mais uma pessoa para carregar sacos com materiais ou ajudar na hora de enfrentar uma horda ou investigar uma casa. Conversar com membros de enclaves vizinhos é quase um desafio, já que a todo momento o dialogo é quebrado por saírem correndo para atacar algum zumbi próximo.

Conclusão

State of Decay 2 é muito eficiente ao proporcionar ao jogador uma experiência particular de criar e desenvolver não só uma comunidade, mas uma história em pleno apocalipse zumbi. Mesmo que sua trajetória até o final tenha diversas semelhanças com a de um amigo ou mesmo a minha, a comunidade e os membros presentes serão sempres únicos e de certa forma marcantes. A sensação de urgência pode parecer algo negativo para alguns, com escolhas e diversos fatores para apenas uma pessoa só se preocupar, mas força de forma hábil a pensar fora do básico apresentado e ir atrás de soluções mais complexas e ideias para continuar sobrevivendo. O New Game plus encoraja o jogador a começar uma nova comunidade, com mais duas cidades para explorar e com auxílio constante de itens enviados pela suas bases do save anterior. É comum perceber que já se passou horas jogando quando se está preocupado com as necessidades de sua comunidade.

No entanto, State of Decay 2 continua com problemas sérios de bugs em diversos momentos e traz uma repetição que pode não agradar aos jogadores com dificuldade em imergir no jogo. Claro, o modo online pode reverter isso SE jogado com amigos, tornando a sobrevivência menos solidária e mais divertida.

Com o foco principal sendo o gerenciamento das instalações e recursos, é quase inevitável não ter uma sensação de estar fazendo tudo sozinho, com 3, 5 ou 10 cabeças de bobeira em sua base. Mesmo podendo assumir o controle de qualquer personagem vivo, faltam maiores opções de comando dos membros. Ações como enviar pessoas para investigar locais e coletar recursos, semelhante ao visto em AC: Brotherhood nas missões de assassinos, combinaria e faria muito sentido na proposta de State of Decay 2. Opções de diálogos mais profundos para conhecer, desenvolver ou mesmo resolver problemas pessoais e intrigas dos membros também seria uma opção, dando ainda mais personalidade a campanha e sua comunidade.   

Minha comunidade é minha família

Em meio a diversos jogos de apocalipse no mercado, State of Decay 2 consegue ter uma identidade própria e sem dúvida é uma boa opção para quem busca algo alternativo do gênero. Não é um jogo para todo mundo, sem dúvida. A parte administrativa vai afastar aqueles que procuram um jogo de ação com zumbis linear. Quem jogou o primeiro State of Decay vai se sentir em casa. Não só o coop foi bem-vindo, como a implementação e evolução de muitas mecânicas presentes em seu antecessor. State of Decay 2 exige e uma dedicação especial para conseguir deixar tudo em ordem – ou o melhor possível naquele momento. Se esses fatores te agradam como jogador, com certeza vai gostar de State of Decay 2.


PRÓS: Administração da comunidade, New Game Plus e Modo Online.

CONTRAS: Bugs, Falta de melhores opções de comando, Expressões dos personagens e Comunicação limitada no online.

State of Decay 2

Desenvolvedor: Undead Labs

Publicadora: Microsoft Studios

Lançamento: 2018

Plataforma: Xbox One e PC

Gênero: Terror de Sobrevivência

NOTA FINAL: 7.5

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Post Author: Gustavo Biazoli

Gustavo Biazoli é editor de vídeo profissional e gamer desde criança. Seu primeiro console foi o incrível Master System, seguido do SNES e um PSOne, onde seu amor pelos games realmente floresceu. Gamertag/ PSN ID: 'GBiiazoli'

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